I - O Jardim Da Maldade e Das Cores Perdidas

Todas as cores foram embora daquele jardim.
Lá, apenas sobrou o branco e o preto
E a despeito do sangue transparente dos insetos
O sangue humano tingia o resto de vermelho.

Lá todas as flores eram cadáveres.
Fétidas jasmins, pretas e murchas;
Beladonas pálidas, melancólicas – mortas;
Arbustos finos de galhadas tortas
Se torturavam, calvos, junto a tétricas murtas.


Se contorciam em contorções sinistras
Sentindo alguma dor desconhecida
E de intensidade ignorada.
Mas se via na tortura da galhada
A expressão facial de um urro ensandecido.



E as trepadeiras, intrépidas, escalavam
As outras plantas, procurando o céu.
Iam envolvendo tudo com seu grosso véu,
E se agarrando a tudo com seus tentáculos viscosos,
Como um ser desesperado que se agarra a um poste,
Temendo que o furacão lhe leve embora.



Iam apalpando tudo à procura de vida,
Qualquer coisa viva que pudesse ser comida
Mas só puderam achar artrópodes mortos.
Ela provavelmente ignoravaQue já não vivia mais: era um fantasma
Mas ainda não desencarnara
Assim como tudo naquele jardim
E como era vasta aquela micropopulação moribunda!
Artrópodes minúsculos exibiam os ossos,
Mesmo sabendo que eram invertebrados.
Brilhava o negro de sua armadura rude...
Mas eram ocos por dentro, no seu interior já não havia nada!
Pois os vermes comeram suas vísceras
Vermes ignorantes! Também eles estavam mortos!!
Ignoravam esse fato tão simples, e iam deglutindo
Pouco a pouco o conteúdo visceral dos insetos
Que indiferentes, iam caminhando, incertos
Como se ainda não fossem puramente a casca
E os demais insetos seguiam, em desalento
A procissão sombria dos celenterados.
Formigas marchavam para sua cripta
Pois nem a morte deteria seu trabalho
Era preciso carregar comida
Para a multidão de larvas abortadas
Enquanto a rainha, num banquete canibalista
Comia os restos de alguns operários.
Joaninhas negras com manchinhas brancas
Voavam sem saber que não tinham asas
E os caracóis, misantropos, se escondiam,
Nas catedrais dorsais de suas casas
Um grilo cinza de olhos vermelhos
Pulava com uma das patas arrancadas
E com a serra fatal dos seus braços
Matava os defuntos por onde passava

Vendo o torpor que invadia as almas
Alguns escorpiões tentavam se suicidar
Injetando em si seus próprios venenos
E percebendo que não estavam morrendo
Foram os primeiros a perceber que já estavam mortos
***
Mas a viúva negra... Ela estava feliz...
Porque carregava em suas costas a culpa de um assassinato;
Matara seu marido, durante o ato
Da geração de seus filhos, provocara
Em seu marido uma hemorragia;
Mas agora, depois de tanto tempo, se arrependia
E por isso mantivera o cadáver de seu marido oculto
E intacto sob um manto de teia.
E agora via que eram dois viúvos...
Voltariam pois a se amar pra sempre!
Ela pediria perdão a seu maridoPor trocar a vida dele pela de seus filhos.





***


E foi assim que pela eternidade
Um belo jardim se transformou num túmulo.
Em um depósito de cadáveres e húmus
Num canteiro de mortes e de maldade.
As cores, foram perdidas,
Por culpa de um ato covarde.
Toda a maldade do mundo fora ali depositada.
A maldade não sumiu do mundo,
Ela está ali, manifestada
E enquanto os injustos vivem um mundo perfeito
As flores jazem, fétidas, abandonadas
Pagam pelos pecados do mundo todo
Sofrem toda a dor que do mundo extirpada.

O JARDIM ESTÀ TRANCADO A SETE CHAVES
E NINGUÉM NUNCA VAI ENCONTRÁ-LO!!









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